Desconfiança Epistemológica na Era da IA: o caso do cinema documental
(No prelo)
As possibilidades técnicas emergentes do cinema digital — nomeadamente o CGI e, mais recentemente, o deepfake e a IA generativa — convidam-nos a revisitar o problema clássico do realismo no cinema, em particular o problema do realismo no cinema documental. À luz deste novo contexto tecnológico, a especificidade ontológica do documentário exige uma reflexão ética e estética renovada.
O problema ético do documentário coincide amplamente com o desafio de delimitar o tipo particular de realismo que o rege. A emergência da IA generativa, ao permitir a criação de imagens hiper-realistas indistintas da realidade, reforça o realismo percetivo, mas fragiliza o seu valor epistemológico, tornando cada vez mais difícil atestar a autenticidade das imagens – e essa dificuldade constitui também um problema ético.
Partindo deste enquadramento, o presente artigo propõe uma tipologia de três níveis de desconfiança epistemológica: a desconfiança quanto à veracidade (nível discursivo), quanto à indexicalidade (nível ontológico) e quanto à autoria (nível da certificação humana).
Concluiremos que o questionamento ético do documentário é indissociável do desafio teórico da sua delimitação enquanto género. Descrever o tipo particular de realismo que rege o documentário é essencialmente o mesmo que descrever os seus fundamentos éticos. E isto torna-se mais evidente na era da IA.