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Narrativa Cinematográfica e Realismo Indireto: para uma Abordagem Fenomenológica da Narratividade

2018

Partindo da análise dos conceitos de narratividade e real, propomos, neste artigo, uma reflexão crítica sobre a tese realista que relaciona a “autenticidade” do cinema com uma recusa da narratividade. A tradição realista que se firmou na teoria do cinema ao longo do século XX (com nomes como Kracauer, Bazin ou Deleuze) defende, geralmente, uma recusa da narrativa e uma valorização do imediatismo das imagens. Existem, no entanto, abordagens alternativas à narratividade que permitem reaproximá-la dos propósitos realistas do cinema e das artes. Pretendemos aqui desenvolver uma dessas abordagens, assente nas seguintes premissas: 1) Os estudos narratológicos e os estudos fenomenológicos da narratividade são essencialmente distintos, complementando-se. 2) A fenomenologia permite reinterpretar a narratividade, relacionando-a, num sentido particularmente abrangente, com as noções de performatividade e autoria. 3) A performatividade implica um afastamento do real e da literalidade do real. 4) O cinema está intimamente vinculado à performatividade, mas também reclama uma relação estreita com o real, reconhecível não apenas na natureza intrínseca do próprio suporte (o olho-máquina), mas sobretudo na permanente busca de “autenticidade” por parte dos cineastas e estetas do cinema. 5) Esta aparente contradição – que constitui, na nossa opinião, o cerne do problema estético – pode ser minimizada à luz de um realismo indireto.